Crise aumenta incumprimento das famílias e obriga empresas de crédito a reforçarem equipas. Só na Cofidis, o número de cobradores cresceu 20% desde o início do ano.
As empresas de crédito ao consumo estão a reforçar as suas equipas de recuperação de dívidas, para fazer face ao aumento do incumprimento. Cofidis, Cetelem e Credifin, três das principais empresas do sector a operar em Portugal – com uma carteira de crédito conjunta superior a 2,28 mil milhões de euros no final de 2007 – admitem ao Diário Económico que a crise está a aumentar os atrasos nos pagamentos.
“O reforço das equipas de recuperação é um indicador de como o incumprimento está a aumentar”, reconhece Margarida Pena, directora de Recursos Humanos da Cofidis. Desde o início do ano, já chegaram mais 34 colaboradores à área, que conta agora com 191 pessoas para reaver as mensalidades que estão em atraso.
Jacques Trohel, director de Análise e Recuperação de Crédito da Cofidis, garante que o aumento do crédito malparado se tem registado “em linha com a média nacional, identificada pelo Banco de Portugal [ver gráfico]”, mas recusa-se a avançar um número exacto. E justifica: “há muita falta de confiança nos mercados [monetários]; a Cofidis tem de manter a confiança junto dos investidores, para se financiar a bom preço”.
De qualquer modo, o responsável reconhece que a crise financeira trouxe “mais incumprimentos em valores pequenos e não apenas nos montantes mais elevados”.
Na Cetelem a equipa foi reforçada em 10 pessoas, chegando agora aos 60 colaboradores. Albertino Neves, director de Gestão Clientela, garante que a taxa de incumprimento se tem mantido inalterada face a 2007: 4% dos clientes, ou seja 17.500 pessoas, estão em situação de gestão de incumprimento. Contudo, o responsável da Cetelem reconhece que o montante acautelado em provisões para fazer face ao incumprimento está “20% acima da realidade do ano passado”, embora seja necessário esperar pelo final do ano para uma avaliação mais precisa.
A Credifin, que conta com 63 colaboradores de cobranças, também admite um aumento do incumprimento, “mas de forma moderada”.
Nos casos de incumprimento, os clientes são rápidos a decidir quais são as prioridades. “Em caso de dificuldade, as prestações da casa e do carro são as primeiras a ser pagas”, reconhece Jacques Trohel.
As empresas de crédito ao consumo lutam depois pelo rendimento mensal que sobra, num ambiente que até na recuperação de dívidas é concorrencial. “A recuperação opera em concorrência com as outras empresas. Se não fizermos bem o nosso trabalho, as outras empresas do mercado poderão adiantar-se e garantir o pagamento dos seus créditos, continuando os nossos em atraso”, explica Jacques Trohel.
Famílias portuguesas estão sobreendividadas
Segundo os dados do Banco de Portugal, o endividamento das famílias representa 129% do rendimento disponível. O excessivo endividamento é particularmente penalizante num momento de crise e de aumento das taxas de juros, já que a maioria dos empréstimos à habitação em Portugal estão indexados à Euribor a seis meses. Isto significa que a grande maioria das famílias tem sentido a prestação da casa aumentar na mesma proporção em que os juros têm subido nos mercados. Somado ao aumento dos preços dos alimentos e dos combustíveis, o orçamento disponível fica ainda mais comprometido, amortecendo o consumo privado para níveis próximos dos de 2003, o ano da recessão económica. Desde 2000 que a taxa de poupança das famílias tem vindo a diminuir, tendo passado de mais de 10% do rendimento disponível para 7,9% em 2007.
Como se recuperam as mensalidades
Cofidis, Cetelem e Credifin privilegiam o contacto telefónico para convencer os clientes a pagarem as mensalidades em atraso. Tanto a Cetelem como a Cofidis explicam que o primeiro contacto é sobretudo informativo. Nesta fase, os colaboradores procuram perceber o motivo do atraso, podendo enviar mensagens por telemóvel com a entidade e o montante em falta, para mais facilmente a situação ser regularizada. Quando o incumprimento se arrasta por mais meses, o atendimento é personalizado e a pressão aumenta. Uma reportagem do “Expresso” no final de Junho denunciou o aumento de abusos (violência verbal e ameaças, por exemplo) na cobrança de dívidas, citando centenas de queixas à Deco. As empresas visadas – Cetelem e Cofidis – negaram o uso de métodos irregulares.






