Desvergonhamento
Deparei com a palavra desvergonhamento na tradução setecentista do célebre ‘Tratado do Sublime’, obra atribuída ao filósofo grego Dionísio Longino (213-273), um livrinho que acabo de encontrar no Salão do Livro Antigo, a decorrer no Convento do Beato, em Lisboa, até dia 18. A tradução de 1771 deve-se a Custódio José de Oliveira. Justificar-se-ia segunda edição em 1804. A Imprensa Nacional – Casa da Moeda reeditou o texto em 1984, com introdução de M. Leonor Buescu.
Não nos interessa aqui o que defende o Autor. Foi a surpresa do termo desvergonhamento a captar a minha atenção, porque ser capaz de corresponder a uma atitude actual, que se podia definir simplesmente como desvergonha, palavra acolhida no actual Dicionário, mas sem a mesma força, sem agarrar e caracterizar uma persistência na falta de vergonha. Aplica-se, por exemplo, aos cadernos eleitorais cheios de defuntos, ao crescimento da pobreza, ao sistema da justiça portuguesa, a Saramago lamentando o cinismo intelectual de Bento XVI…
Ter vergonha é boa atitude para todos os humanos, sobretudo quando assumem cargos directivos, seja na economia, na política, na justiça, na comunicação social, na religião. Vimos recentemente que foram gestores e economistas sem vergonha a provocar ou evidenciar uma crise que terá ainda graves consequências no quotidiano de muitas vidas. Esperamos que as recentes eleições sirvam para os agentes políticos terem vergonha de não encontrar soluções estáveis para governar o país.
Empresários, sindicalistas, operários, precisam de ter vergonha de não assumirem a liberdade para enfrentar os problemas com verdade e sem amarras partidárias. A comunicação social seria fundamental que tivesse vergonha de usar de qualquer meio para vender notícias antes de averiguar a veracidade das informações. Os homens e as mulheres crentes são chamados a ter vergonha de não mostrarem a credibilidade da sua fé e a energia da sua esperança.
Como cidadãos, devemos exigir que o desvergonhamento não se desenvolva em descaramento petulante e desfaçatez atrevida. E termino com palavras elevadas, das conclusões dos dias sociais católicos europeus, em Gdansk. Atiram-nos para o sublime que deve orientar-nos os passos, como já quis o autor helenista do século I.
“Queremos sublinhar que a solidariedade é um dever para cada um de nós e que não há outra condição para evitar o arbitrário no domínio dos direitos individuais.”
D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa
CM
Deparei com a palavra desvergonhamento na tradução setecentista do célebre ‘Tratado do Sublime’, obra atribuída ao filósofo grego Dionísio Longino (213-273), um livrinho que acabo de encontrar no Salão do Livro Antigo, a decorrer no Convento do Beato, em Lisboa, até dia 18.
A tradução de 1771 deve-se a Custódio José de Oliveira. Justificar-se-ia segunda edição em 1804. A Imprensa Nacional – Casa da Moeda reeditou o texto em 1984, com introdução de M. Leonor Buescu.
Não nos interessa aqui o que defende o Autor. Foi a surpresa do termo desvergonhamento a captar a minha atenção, porque ser capaz de corresponder a uma atitude actual, que se podia definir simplesmente como desvergonha, palavra acolhida no actual Dicionário, mas sem a mesma força, sem agarrar e caracterizar uma persistência na falta de vergonha. Aplica-se, por exemplo, aos cadernos eleitorais cheios de defuntos, ao crescimento da pobreza, ao sistema da justiça portuguesa, a Saramago lamentando o cinismo intelectual de Bento XVI…
Ter vergonha é boa atitude para todos os humanos, sobretudo quando assumem cargos directivos, seja na economia, na política, na justiça, na comunicação social, na religião. Vimos recentemente que foram gestores e economistas sem vergonha a provocar ou evidenciar uma crise que terá ainda graves consequências no quotidiano de muitas vidas. Esperamos que as recentes eleições sirvam para os agentes políticos terem vergonha de não encontrar soluções estáveis para governar o país.
Empresários, sindicalistas, operários, precisam de ter vergonha de não assumirem a liberdade para enfrentar os problemas com verdade e sem amarras partidárias. A comunicação social seria fundamental que tivesse vergonha de usar de qualquer meio para vender notícias antes de averiguar a veracidade das informações. Os homens e as mulheres crentes são chamados a ter vergonha de não mostrarem a credibilidade da sua fé e a energia da sua esperança.
Como cidadãos, devemos exigir que o desvergonhamento não se desenvolva em descaramento petulante e desfaçatez atrevida. E termino com palavras elevadas, das conclusões dos dias sociais católicos europeus, em Gdansk. Atiram-nos para o sublime que deve orientar-nos os passos, como já quis o autor helenista do século I.
“Queremos sublinhar que a solidariedade é um dever para cada um de nós e que não há outra condição para evitar o arbitrário no domínio dos direitos individuais.”