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Início Política ‘Pagar a dívida é uma ideia de criança’

‘Pagar a dívida é uma ideia de criança’

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José Sócrates, mesmo tendo alguma razão, vai arrepender-se mil vezes de ter dito aquela frase. Porque ela o vai perseguir o resto da vida. Se quiser voltar à política, sempre que se fale da dívida soberana, lá estarão os adversários a atirar-lhe à cara: «O engenheiro Sócrates acha que as dívidas não são para pagar».

Há frases que marcam os políticos. Os «jobs for the boys» não largaram Guterres até ao fim (apesar de ele ter dito a frase pela negativa).

Do mesmo modo, as considerações de Sócrates sobre a dívida ficarão agarradas para sempre à sua pele.

Quando viu o eco das suas afirmações em Portugal, José Sócrates apressou-se a esclarecê-las e, numa entrevista à RTP, explicou que apenas quisera dizer que uma dívida soberana não se paga toda «de uma só vez».

Ora, se a primeira afirmação foi infeliz, a correcção também não lhe saiu bem.

Alguém falara em pagar a dívida do Estado de uma vez só?

Essa questão alguma vez se colocou?

A correcção feita por Sócrates, sendo de uma evidência infantil, soou pois a falso – ficando a impressão de que ele é mesmo contra o pagamento das dívidas.

Ora, o que Sócrates quis dizer da primeira vez até tem alguma razão de ser.

Muitos países actuam assim – e é esta a prática da maioria dos clubes de futebol.

Estes vão efectivamente ‘gerindo a dívida’ – renegociando-a periodicamente com os bancos, pagando hoje uma parcela para a seguir a aumentarem mais, atrasando os pagamentos a fornecedores e ao Estado, lançando mão de receitas extraordinárias para aliviarem um pouco a tesouraria, mas, no momento seguinte, utilizando esse dinheiro para comprar mais um jogador, etc.

Há clubes que vão sempre vivendo deste modo – e outros (como o Boavista) que pagaram com a própria vida essa atitude.

Foi isto o que José Sócrates quis dizer.

O problema, porém, é que Sócrates não o fez!

Ele não geriu a dívida – deixou-a continuamente crescer.

Não andou para trás e para diante, satisfazendo hoje um, amanhã outro, não permitindo que a situação se agravasse demasiado – pelo contrário, permitiu que a dívida fosse crescendo sempre, numa espiral diabólica.

Sócrates não geriu – deixou a dívida acumular-se.

Assim, Portugal acabou por perder totalmente a confiança dos mercados, com os juros a aumentarem sem parar, até não haver dinheiro para pagar ordenados aos funcionários – e termos de ser intervencionados.

O problema foi este.

Se Sócrates tivesse ‘gerido a dívida’, não teríamos chegado ao ponto a que chegámos.

Há algumas semanas tentei perceber o que estaria na cabeça de José Sócrates ao deixar o país caminhar para o abismo, sem uma tentativa de arrepiar caminho.

E escrevi que Sócrates padece da síndrome do jogador de Casino.

O jogador de Casino perde uma vez e continua a jogar, perde segunda vez e continua a jogar, perde terceira e continua a jogar, a jogar sempre, na esperança de recuperar o que perdeu – e vai-se arruinando cada vez mais, até ficar sem nada.

Com Sócrates sucedeu o mesmo: foi pedindo e gastando, pedindo e gastando, pedindo sempre e gastando sempre, na esperança de que acontecesse um milagre que o salvasse.

Só que o milagre não aconteceu – e Portugal ficou à beira da bancarrota.

E o cúmulo dos cúmulos é que Sócrates parece não ter consciência disso.

Tal como uma criança que não assume a responsabilidade dos seus actos, também Sócrates passa alegremente por cima dos erros que cometeu.

De facto, nessa mesma intervenção em Paris, ele disse que não irá perder «um segundo da sua felicidade» preocupando-se com as críticas à sua governação.

Ora isso coloca-o no plano dos políticos irresponsáveis.

Poder-se-á agora legitimamente dizer que, quando era primeiro-ministro, ele foi pedindo dinheiro emprestado sem qualquer intenção de o pagar.

É claro que um político assim dificilmente pode pretender voltar a assumir um alto cargo – até porque ninguém voltará a emprestar-lhe dinheiro.

Ninguém no futuro aceitará conceder-lhe crédito.

 

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