É o que dizem os portugueses (vide sondagem EXPRESSO). Qual o significativo político deste apelo? Os portugueses não querem deixar os políticos nacionais com rédea solta; querem agora sacrifícios com resultados. Saiba aqui.
1) Os portugueses encaram a intervenção do FMI como a melhor solução para a resolução do problema financeiro português , segundo a sondagem do EXPRESSO. Qual o significado político deste dado? Primeiro: os portugueses, na sua maioria, estão cientes de que urge tomar medidas difíceis, de mudanças profundas no modo como entendemos o Estado-Administração e o modo como nos relacionamos com ele. De mudar de vida - e as mudanças, na política como na vida, acarretam sacrifícios.
Portanto, sinto-me reconfortado e satisfeito ao perceber que os nossos compatriotas estão dispostos a contribuir para o esforço colectivo de recuperação nacional. É um retrato perfeito dos portugueses: em momentos de grandes dificuldades, nunca viramos a cara, nunca desistimos. E, no fim, acabamos por vencer. Só assim se explica que um Estado periférico , de reduzida dimensão como o nosso, seja o Estado-Nação mais antigo e tenha dado um contributo indelével para a construção da nossa civilização. Os portugueses querem - de uma vez por todas! - sacrifícios com resultados.Porque, citando o título do livro de Nicolau Santos (compilação de artigos sobre o nosso país, que representam uma reflexão profunda, sensata e inteligente), Portugal vale a pena.
2) Dito isto, vamos à segunda conclusão: os portugueses querem deixar uma mensagem clara ao apelarem à intervenção do FMI. Uma mensagem muito simples: estamos fartos de apertar, apertar e apertar de novo o cinto - para que, afinal, os problemas do país se adensem ano após ano. Isto é, os portugueses, ao pedirem a intervenção do FMI, estão a dar uma bofetada tremenda na cara dos políticos que nos governam e nos têm governado. Os portugueses preferem a intervenção da burocracia internacional do que deixar os políticos nacionais resolverem os nossos problemas. Os portugueses não querem deixar os políticos nacionais com rédea solta. Voltamos ao nosso problema central - ninguém acredita nas nosssas instituições democráticas.
Os políticos não são respeitados porque não se dão ao respeito. Por exemplo, nós, jovens, nunca ouvimos um discurso diverso deste discurso catastrofista da crise, do aperta o cinto, da tanga e do fim de Portugal. É sempre a mesma cantiga! PS e PSD são tidos como partidos siameses, incapazes de alterar o que quer que seja - dependem da clientela partidária para se aguentarem no poder.
Dependem dos cargos (ninguém sabe porquê, mas há quem chame tachos) que oferecem ao camarada ou ao companheiro do partido para o apoiar nesta ou naquela eleição. Para além das medidas de austeridade para equilibrar as nossas finanças e relançar a economia, precisamos de um pacto de verdade e transparência: PS e PSD (eventualmente, CDS) devem assentar sobre quais os cargos de nomeação pólítica e só - SÓ! - esses ficam dependentes das alterações de governos; reduzir e controlar a criação de empresas públicas, fiscalizar os seus gastos (note-se que as empresas públicas são administração pública, ainda que sob forma privada, e, logo, o Governo responde politicamente pela actuação daquelas e tem competência genérica para exercer o seu controlo, para além da fiscalização pelo Tribunal de Contas); mesmos nas empresas públicas que se decida manter e criar, optar pela meritocracia, pela capacidade de gestão das pessoas nomeadas -e não se aferir a sua idoneidade pelo cor do cartão partidário.
E falar verdade é fundamental -sim, eu sei que já é um cliché! Mas esse é que é o problema: é um cliché, porque ninguém o leva a sério, com os efeitos que estão à vista de todos! Que autoridade moral tem um político para exigir sacrifícios aos cidadãos quando passa a vida a proclamar que ainda está para nascer alguém que faça melhor do que ele? Poupem-nos!
Portugueses também querem uma remodelação governamental
3) Os portugueses querem uma remodelação governamental. E vão tê-la, algures depois das presidenciais e do Congresso do PS. Volto a dizer: é um erro estratégico e táctico a direita continuar a exigir a demissão de Teixeira dos Santos. O Ministro das Finanças só cairá quando cair Sócrates. O PM não vai largar Teixeira dos Santos - porque ficaria desprotegido. Sócrates é mais fraco do que aquilo que se pensa. Naturalmente, os ministros mais criticados pelos portugueses são aqueles que mais mexem com a vidinha de cada um: finanças, economia, saúde e o "ministro-fantasma" António Mendonça. Uma injustiça: o Ministro da Agricultura, António Serrano, que se tem esforçado para fazer algum trabalho, tem popularidade negativa; enquanto Alberto Martins, com o Ministério da Justiça num verdadeiro pandemónio, tem popularidade positiva (é o 3.º ministro mais popular). Veja a popularidade de todos os ministros aos olhos de portugueses na edição impressa do EXPRESSO deste fim de semana para tirar as suas próprias conclusões.
4) Uma última nota para as juventudes partidárias. Ao fim e ao cabo, elas serão responsáveis pelos políticos do futuro. A responsabilidade que sobre elas impende é muita. Não queiram ser a antecâmara para os vícios que se vêem nos partidos.Em todos. Felizmente, actualmente, as jotas já começam a focar-se mais na formação política do que em agitar bandeiras nas ruas. Há estruturas locais de várias juventudes partidárias que discutem política a sério. Às vezes, comete-se a injustiça de se dizer que as jotas servem para os políticos recrutarem os seus assessores e tentarem dominar o aparelho. Felizmente, a realidade começa a mudar. A JS e JSD têm novos líderes (Pedro Alves e Duarte Marques, respectivamente) cuja competência e rigor me fazem acreditar que as juventudes partidárias terão um papel importante para a revitalização da nossa democracia. Oxalá assim seja.
P.S - A propósito de juventudes partidárias, uma sugestão de presente de natal: o livro "Histórias da JSD"(ed.Pactor), coordenado por Paulo Colaço. Independentemente do partido com o qual mais simpatiza, é um livro agradável de ler. Não é panfletário - e permite compreender a evolução política do país, em paralelo com a evolução do PSD e JSD. A ideia não é nova: há um livro anterior de Jamila Madeira sobre a Juventude Socialista "30 anos de Estórias de Portugal e do Mundo" (muito meritório, que eu também ja li e aconselho - até porque considero Jamila Madeira uma das melhoras dirigentes políticas da nova geração que a JS formou). Todavia, o livro de Paulo Colaço é original, porque dá a voz aos protagonistas da História na história do livro.Lê-se num folgo, dada a vivacidade da sequência. Porque não oferecer aos seus irmãos, filhos ou netos no Natal? Seria uma boa iniciação à história política portuguesa...






