O problema essencial não reside, ao contrário do que vem sendo
revelado pelos diversos atores, na necessidade do país em encontrar
financiamento externo. O problema essencial reside no facto de a classe política
(de todos os setores) manter a empregabilidade das suas clientelas, espalhadas,
de forma mais ou menos equilibrada e na devida proporção, por toda a rede da
administração pública. São mais de 350.000 funcionários excedentários, um exército de
gestores que só o são porque passaram pelo filtro dos partidos ou têm alguém
amigo na política e, a montante e a jusante, clientelas empresariais, agora mais
visíveis, porque, apesar de tudo, o governo resolveu torná-las públicas numa
base de dados sobre a contratação.
O chamado «estado social» é minúsculo e Portugal continua a ter dos
maiores índices de pobreza da Europa. Segundo a base de dados Pordata, a
divida bruta das administrações públicas cresce a um ritmo quatro vezes superior
ao da receita fiscal. Porém, a despesas pública na educação e na saúde (que são
o essencial do «estado social») é sensivelmente inferior a metade da receita
fiscal. Significa isso que, sem operar reduções das despesas da saúde e da
educação, o Estado ficaria com outro tanto para se manter. Só que, o que a
realidade mostra é que gasta oito vezes mais do que esse valor, em boa parte com
despesas inúteis ou marcadas pela suspeita de má administração. É por demais óbvio que este caminho é absolutamente insustentável.
Ninguém pode gastar quatro vezes o valor do que tem como proveitos sem se
colocar numa posição de insolvente. À luz dos conceitos que o próprio Estado definiu para as empresas, é
obvia a conclusão de que o Estado português está numa situação de
insolvência. Dispõe o artº 3º do Código da Insolvência e da Recuperação de
Empresas: «É considerado em situação de
insolvência o devedor que se encontre impossibilitado de cumprir as suas
obrigações vencidas.» É essa, precisamente, a situação do
Estado Português, porque, vistos os números, se encontra impossibilitado de
cumprir as suas obrigações. Sendo um Estado e tendo ainda alguns
amigos, vai empurrando com a barriga e tentando tapar os buracos com empréstimos
que nunca pagará, porque a divida, com este ritmo, é absolutamente
imparável. O Estado é, porém, beneficiário dos
favores que merecem sempre os grandes devedores. Enquanto as pequenas empresas
morrem como tordos (veja-se a propósito, só, o que aconteceu em
Portugal nos dias 14 e 15 de Outubro) os grandes
devedores sobrevivem mesmo com grandes passivos, porque a declaração da sua
insolvência causaria graves danos na contabilidade dos seus credores. E estes
preferem ter papel que não vale nada a terem nada. No fim de contas, bem vistas as
coisas, o que interessa a quem empresta dinheiro é receber os juros, mesmo que
saiba que os ativos de capital são irrecuperáveis, porque desde que os juros
sejam pagos é como se eles fossem efetivos e reais. Natural é, porém, que os juros a
cobrar a quem se sabe que nunca pagará o capital sejam mais elevados. E que não
haja mais empréstimos, mesmo que para o pagamento dos tais juros (como é
manifestamente o caso) se não houver a garantia de que quem de direito aprova o
endividamento. Nisso reside o cerne da questão da
absoluta necessidade do Orçamento do Estado. Se ele se destinasse à exclusiva
função de prever receitas e despesas não viria mal ao mundo (nem a
Portugal) se se adiasse a sua aprovação e o Governo fosse forçado
a governar com duodécimos. Mas não, o Orçamento é uma ferramenta
indispensável - como se fosse um aval do Povo a um novo empréstimo
– para aumentar o calote português. O problema essencial reside no facto
de, com aqueles números, a situação se tornar insustentável, tornando-se a
bancarrota inevitável, em condições muito mais gravosas do que aquelas que
teríamos hoje se ela fosse declarada. Os recursos necessários para o
funcionamento da economia serão ainda mais reduzidos, a miséria aumentará
exponencialmente e alguns dos melhores valores que Portugal como
país pequeno, moderno e limpo, desaparecerão inexoravelmente, como, aliás, já se
viu em quadros semelhantes. O atual presidente do Tribunal de
Contas chamou a atenção para a gravidade do problema, quando era ministro das Finanças, em 2001. Mas
parece que ninguém o ouviu. E, desde essa data para cá, tem sido um autêntico
regabofe. Uma visita ao portal base-contratos online abre-nos os olhos
para um espetáculo dantesco de administração danosa. Desde os ministérios às
câmaras municipais, passando pelos institutos públicos são milhões
gastos em despesas sumptuárias que poderiam evitar-se, a benefício da saúde
financeira do país. Muitas delas reportam-se a áreas de
intervenção claramente fora do quadro de competências das instituições. Outras
parecem esquecer – ou menorizar – o papel dos funcionários da própria
administração, marginalizados por contratações de serviços, pagas por valores
principescos. Antigamente, as grandes questões
jurídicas do Estado eram estudadas e vertidas em pareceres pelo
corpo de auditores públicos ou pelos juristas da Procuradoria Geral da
República. Hoje são tratadas, sem que se saiba se com a mesma dignidade ou não,
porque os pareceres deixaram de ser públicos, por firmas de advogados que
faturam milhões, geralmente contratadas por ajuste direto. Pode verificá-lo na
base, consultando, por exemplo advogados, assistência jurídica, apoio jurídico, serviços jurídicos. A falta de regras de
classificação, não permite sequer ter uma ideia de conjunto de cada classe de
serviços, o que não nos parece ser inocente. Se se ligarem as instituições às
pessoas, constata-se que estes negócios são, por regra, feitos com empresas de
que são sócios ou políticos ou ex-políticos, em que pauta, com peso muito
especial o Prof. Sérvulo Correia, antigo deputado do PSD. O que se passa na área da Justiça é
um escândalo, pela exorbitância dos desperdícios, dos valores pagos e da
duplicação de encomendas. Vejam-se, só a titulo de exemplo as pesquisas
relativas em nome do próprio Ministério e as relativas
ao Instituto dos Registos e do Notariado,
que aparece também como IRN ou do Instituto para as Tecnologias da Justiça,
que tem outra lista sob a sigla ITIJ. O que se vê nesta base de dados é
uma complexa teia de interesses, em que se jogam milhões e milhões de euros em
aquisições de bens e serviços por valores principescos, muito superiores aos
correntes no mercado, porque a generalidade destas contratações foram operadas
por ajuste direto. Esta situação exigiria uma cuidadosa
auditoria para a verificação da sua (i)razoabilidade, que, obviamente, ninguém
tem condições para fazer. Ficarmos todos parados é, porém, atitude
semelhante à da não reação perante o carteirista que nos rouba no metro e
foge… Todos temos o
direito de conhecer os documentos contratuais e os que se reportam aos seus
resultados. É altura de o
exercermos. Para além disso, todos temos o direito de denunciar ao
Ministério Público todos os atos que indiciem administração danosa, nos termos
do disposto no artº 235º do Código Penal, onde se dispõe que «quem,
infringindo intencionalmente normas de controlo ou regras económicas de uma
gestão racional, provocar dano patrimonial importante em unidade económica do
setor público ou cooperativo é punido com pena de prisão até 5 anos ou com pena
de multa até 600 dias. » Mais do que as pessoas, é altura de
as empresas lesadas pela perturbação da concorrência recorrerem aos tribunais
para exigir a punição criminal de quem, por via de esquemas de favorecimento,
beneficia os seus concorrentes, adquirindo-lhes bens ou serviços por preços que
ofendem todas as regras da gestão racional. É que a continuação destas práticas
põe em causa a nossa própria sobrevivência. Miguel Reis
Algumas questões essenciais do debate
sobre o Orçamento do Estado para 2011 estão sendo ocultas por uma
série de cortinas de fumo que dificultam a compreensão do que verdadeiramente se
passa no terreiro político.






