Os devedores caloteiros que têm por onde ser penhorado estão feitos: Vem o tribunal, executa a casa, é-se posto na rua; a mulher foge com um senhor de idade; os amigos mudam de passeio com medo de serem cravados . Outrora, ia-se para a prisão por dívidas e, com mais outroras, até se caía na escravatura. Um inferno.
(Onde o autor, cheio de equimoses como qualquer membro da classe média que se preze, sustenta que, com melhores ou piores apresentações, o governo é o faz-tudo da troika e antes fazer o trabalho sujo bem feito do que cair no vício grego - salvo seja! - pois a soberania está a 50%, o que em bancarrota ainda é bem bom).
Com as nações o princípio é o mesmo e o desdém público igual, mas não há a hipótese redentora de fugir para parte incerta. São curiosíssimas as histórias das bancarrotas internacionais ( interessantemente iniciadas, enquanto declaração, pela Espanha, em 1557, 3 anos antes de vir buscar o património português) e o modo de atirar a toalha ao chão até dá para eu ter um catálogo, do estilo Lombroso, para poder chegar ao modo português:
Há os caloteiros em série e, vingativamente, aponto a Espanha que conseguiu falir sete vezes no século XIX, esperando que desta vez nos deixe sozinhos nesta nossa dor; depois, há os arrogantes, estilo Equador esquerdista, duas vezes falido neste milénio, com o presidente, absolutamente "teso, a declarar ao mundo que tinha dado ordens para não pagar os juros da dívida, género "não pago porque não quero"; para calote soberano, temos o do Egipto, no século XIX, que passou mesmo a protectorado, como se costuma lembrar aos devedores relapsos quando a malandragem dos credores passa a dar ordens; a acrescer , temos um género cheio de estilo, o intelectual, que se esquiva ao pagamento, invocando a chamada "dívida odiosa", a contraída para fins pérfidos por um sinistro regime anterior, o que aceitou as letras, como o Iraque post- Sadam. E nós?
Portugal, país de gente peculiar, passou por um psiquiatricamente interessante processo de negação, aceitação e arrependimento, e espera-se que o decurso doloroso dos sacrifícios seja processado com competência e capacidade de reabilitação, não bastando mandar Sócrates tomar cicuta nem simplesmente substituir Teixeira "bancarrota" dos Santos por Vítor "publicano" Gaspar.
Quando o ministro da Finanças sai da cretina "boutade", mal compreendida, de "ir para além da troika" e assegura que o objectivo das penosas medidas é assegurar o exacto cumprimento quantitativo do acordo e que a execução até ao momento é auspiciosa, dá-nos a esperança de que a "expiação" seja redentora para um país onde finalmente se fazem contas. Assumir os termos acordados é do nosso interesse, não é purgar um pecado ou sofrer punição por malfeitoria, pois, se tivéssemos alternativa, fazíamos como o idiota do Equador .
O nosso estilo de bancarrota, civilizado e eficiente, permite-nos receber a ansiada "tranche" da troika, sem a qual o país entra em ruptura económica, o que é uma palavra grande para consequências ainda maiores; prepara-nos para entrar de novo no circuito do crédito, com juros mais baixos e credibilidade retomada, num mundo onde a boa reputação é um inestimável valor; possibilita manter o euro como moeda, quando, ao contrário, ocorreria o pesadelo dos activos em escudos e as dívidas em euros.
Não estivemos a perorar sobre ideologia mas pragmatismo e sensatez, pois não há outra opção que alguém tenha apresentado. Por isso, não posso deixar de referir que são preocupantes as vozes de pura contradição, com o relevo para Mário Soares, pelo peso pessoal, ao afirmar que "o memorandum da troika não é a bíblia", lembrando um outro presidente seu sucessor para quem havia "mais vida para além do défice", com os notáveis resultados que nos puseram onde estamos.
FBMatos
Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
fbmatos1943@gmail.com






