
Corre em Lisboa uma piada brasileira de há 30 anos. Nos anos 70, o sistema financeiro brasileiro estava uma lástima: bancos descapitalizados e instituições parabancárias (estilo crédito fácil) falidas e entupidas de malparado.
As entidades convidaram então capitalistas estrangeiros a investir: não lhes davam licenças novas mas podiam comprar ou um banco ou cinco parabancárias, que "trocariam" por uma licença bancária. A piada era: "Cinco prostitutas não fazem uma virgem". Pois não. Nem nos anos 70, nem em 2011.
Um problema, dividido ou compactado, é ainda um problema. E a história da banca brasileira dos anos 70 pode aplicar-se ao que está a acontecer às "cajas" espanholas, que estão a ser socorridas pelo Banco de Espanha e vão consumir dezenas de milhões de euros aos contribuintes.
Os espanhóis são muito diferentes dos portugueses. Usando os lugares-comuns: o orgulho de uns contrasta com o fatalismo de outros. Isso explicará porque em Espanha se está a estigmatizar tão pouco aquele embuste - em Portugal seria o fim da macacada. São muitos BPN: as "cajas" representam quase metade do sistema financeiro espanhol e estão a derreter ao sol. O governo fala em vinte mil milhões de euros, os analistas falam em 100 mil milhões, o Banco de Espanha contabiliza quase 180 mil milhões de euros de activos tóxicos.
As "cajas" foram um milagre duradouro. Em Portugal, não havia empresário que as não louvasse, explicando que aquele é que era um modelo de apoio às empresas. As "cajas" estavam disseminadas pelas regiões, com ligações assumidas com os partidos políticos (e até à Igreja Católica, que num dos episódios rocambolescos destes meses recusaria vender uma "caja" que dominava a outra "dos comunistas"). Essa era uma teia, ou pelo menos um esteio, que sustentava o desenvolvimento regional, num cruzamento entre política e negócios sem preconceito.
O problema foi o imobiliário: Espanha construiu casas que dão para os próximos 25 anos; o "betão amado" foi a fisga que atirou a economia para a frente; as casas eram vendidas (aos espanhóis, irlandeses, ingleses...) com base no crédito barato e fácil: os bancos espanhóis chegaram a conceder crédito a 80 anos, transmissível a herdeiros, à japonesa (povo para quem o tempo e a honra são de outro compasso). Mas a fisga tornou-se âncora, os preços afundaram, o malparado disparou, as imobiliárias desabaram em falências. E tudo isso se conclui na desvalorização dos balanços bancários. Os activos não valem o que está escrito: são tóxicos.
O Banco de Espanha está agora a tentar vender as "cajas" a quem passe à porta. O La Caixa e a Caja Madrid, lestos, foram os primeiros a agir e pediram licença para passarem a ser bancos, descolando das dezenas de "cajas" negras à deriva. O Santander e o BBVA estarão interessados em comprar partes, mas isso aumentaria a concentração bancária. Dezenas de "cajas" têm sido fundidas, admite-se que para menos de dez, e o Estado espanhol não conseguirá evitar injectar dinheiro, mesmo que isole os problemas num "bad bank". Já os outros bancos cruzam os dedos para que a desvalorização dos activos imobiliários não contamine os seus próprios balanços.
Os sistemas financeiros não são apenas "too big to fail", grandes de mais para falhar. Têm sido também "too dumb to prevail", demasiado burros para prevalecer. O Banco de Espanha anda com um balde de gelo atrás das "cajas", da mesma forma que o Banco de Portugal está alinhado com os bancos portugueses e lhes está indirectamente a emprestar dinheiro. Na economia já não há virgens. As últimas que havia eram os contribuintes. Mas esses já aprenderam o que custa a má vida - dos outros.






