Farmácias em risco de perder alvarás
Há centenas de farmácias com fornecimentos suspensos devido à acumulação de dívidas e alguns estabelecimentos já perderam os alvarás para os fornecedores. Um estudo da Associação Nacional de Farmácias traça um quadro preocupante do sector.
João Cordeiro justifica as dificuldades das farmácias com o “massacre”, que dura há quatro anos, de políticas de redução dos preços dos medicamentos e das margens de lucro. “Baixar os preços é óptimo para os doentes, é seguramente óptimo para o Governo, mas tem consequências”, advertiu, em declarações ao JN, o presidente da Associação Nacional de Farmácias (ANF).
E as consequências, segundo a ANF, ilustram-se em números: só no primeiro trimestre deste ano, o número de farmácias com fornecimentos suspensos aumentou 47% (de 255 para 375). Isto porque os lucros terão diminuído, entre 2006 e 2008, na ordem dos 40%.
Outro dado significativo é que, também no mesmo período, o número de processos judiciais em curso para a regularização de dívidas das farmácias subiu de 121 para 168, o que significa um aumento de 39%. Para evitar a via judicial, 497 farmácias firmaram acordos de regularização de dívidas. No último trimestre de 2009, 179 estavam nessa situação.
Alguns dos processos judiciais já tiveram como desfecho a perda dos alvarás, quer para entidades bancárias quer para fornecedores, garante João Cordeiro.
Para avaliar o estado das farmácias, a ANF propôs ao Governo a realização de um estudo rigoroso, que servisse de base a políticas sustentadas para o sector.
Para a Associação de Farmácias de Portugal, a difícil situação das farmácias deve-se à “política de restrição orçamental assente quase exclusivamente no medicamento”.
Helena Norte, JN
2010-08-21
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Uma em cada quatro farmácias não paga aos fornecedores
Há 665 farmácias em dificuldades financeiras que não conseguem pagar aos fornecedores. A maioria conseguiu estabelecer acordos amigáveis de regularização de dívidas, mas há 168 estabelecimentos alvo de processos judiciais de cobrança coerciva. Em Junho deste ano, os montantes em atraso ascendiam a 151 milhões de euros.
Os dados são da própria Associação Nacional de Farmácias (ANF) e mostram que, de Dezembro do ano passado a meados de 2010, houve um aumento de 57% das dívidas que acabam em tribunal. Em Junho, os distribuidores de medicamentos reclamavam judicialmente cerca de 47 milhões de euros, quando há um ano o número de estabelecimentos nesta situação rondava a centena, com dívidas de cerca de 30 milhões.
João Silveira, vice-presidente da Associação Nacional de Farmácias, defende que este é o resultado das políticas "de ataque" ao sector dos últimos anos, que têm deixado muitas farmácias em "situação difícil". Quase metade (43%) paga pelos medicamentos que consome acima dos 90 dias. No final do ano passado eram 839 nesta situação, em Junho passaram a 1163.
Desde há cinco anos que a associação liderada por João Cordeiro soma negócios e aumenta o seu peso no sector - com participações na distribuição de remédios, tecnologias da informação, estudos do mercado e até gestão financeira. Mas as cerca de 2700 associadas, pequenas farmácias com uma média de seis trabalhadores, estão a ressentir-se.
A ANF defende que os proprietários de farmácia portugueses têm uma rentabilidade das mais baixas da Europa (3,1% das vendas, contra 3,52% em Espanha ou 5% em Itália). O lucro médio terá caído 40% em dois anos (de 2006 para 2008), tendo passado de 59 mil euros para 35 mil euros. De acordo com as contas da associação é o resultado de uma média de vendas que desceu 0,95% e uma redução da margem bruta de 2,19%. Ao mesmo tempo, subiu o custo com pessoal (cerca de 2%, para 162 mil euros em média) e os serviços externos (8,19%).
O vice-presidente da ANF defende que o negócio não é rentável para muitos proprietários de farmácia e elenca um conjunto de factores que, na sua opinião, contribuem para a situação. Um deles é a sucessiva baixa de preços nos medicamentos que tem ocorrido nos últimos anos - o lucro das farmácias depende directamente do preço de venda de cada embalagem e foi agora reposto para os 20%.
"Saíram medicamentos não sujeitos a receita para lojas, as farmácias passaram três ou quatro anos com as margens de lucro reduzidas, abriram farmácias dentro dos hospitais...", exemplifica. Quanto à criação das lojas de medicamentos de venda livre, critica: "Ainda hoje estou para perceber porquê. Só há uma consequência prática: um grupo do sector alimentar passou a dominar o negócio. Se há relação causa-efeito, não sei. A única coisa que sei é que o preço não baixou, o acesso não melhorou e o emprego de jovens farmacêuticos não melhorou."
Rute Araújo, i,
20-08-2010






