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Não há dinheiro: Escassez do crédito agrava anemia económica

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Estado à beira da falência resgatado pela troika. Famílias com excesso de dívidas e com menos rendimento disponível. Banca dependente da linha de financiamento extraordinária do Banco Central Europeu e empresas sem acesso ao crédito marcam o Portugal de 2011, um país mais pobre e mais endividado. A crise de 2011 custou ainda mais aos portugueses.

O ano de 2011 começou com o espectro do resgate do FMI. José Sócrates resistia contra todas as evidências ao pedido de ajuda externo, mas a pressão dos mercados financeiros, com destaque para a queda para lixo da nota da dívida pública, obrigaram o governo socialista a deitar a toalha ao tapete. Sócrates demitiu-se com o chumbo ao PEC IV. Deixou uma pesada herança de endividamento público que asfixiou a economia.

Três palavras passaram a ser dominantes no vocabulários dos agentes económicos, do Estado às famílias, dos bancos às empresas: "Não há dinheiro".

A dívida pública, depois de uma década com crescimento medíocre a par de um ritmo constante de endividamento, chegou a um patamar que ultrapassa os 100 por cento do PIB. O valor real é ainda superior, porque há passivos de empresas públicas e os custos das ruinosas parcerias público-privadas que não estão contabilizados na dívida do Estado, mas que necessariamente serão pagos pelos contribuintes.

Um dos países do Mundo que pior comportamento teve na primeira década do novo milénio, um dos campeões mundiais dos desequilíbrios externos, já aparece destacado entre os mais endividados, ainda longe do Japão e da falida Grécia, mas na realidade muito próximo de Itália. A tragédia grega acelerou o ataque à dívida soberana portuguesa, mas obviamente, mais tarde ou mais cedo, a factura dolorosa iria ser apresentada aos contribuintes portugueses. Ao contrário do que Sócrates explicou no seu exílio voluntário de Paris a estudantes universitários, as dívidas, assim como os défices gigantescos, são mesmo para pagar, e quando os credores desconfiam de que o devedor não tem condições para honrar os seus compromissos os juros disparam até um nível insuportável e a torneira do crédito acaba por secar.

As agências de rating seguiram o faro da desgraça lusa e dos outros elos fracos do euro, mas objectivamente um país que sistematicamente apresenta défices nas contas insustentáveis, com perspectivas negativas de crescimento, oferece poucas garantias aos credores.


PRESSÃO NA BANCA

Os bancos sofrem com a escassez de fundos após uma década de vacas gordas em que aproveitaram o dinheiro fácil e barato da Zona Euro para emprestar às famílias para a compra de casa e de bens de consumo. Nas empresas, o crédito bancário privilegiou a promoção imobiliária e a especulação bolsista. O arrefecimento natural do mercado da construção e o crash das acções criou um buraco monumental nas contas dos bancos, ainda escondido nos relatórios. Os números do Banco de Portugal já apresentam valores de cobrança duvidosa próximos de 12 mil milhões de euros, mas as manobras contabilistas escondem calotes maiores, desde as casas que os bancos não vendem e colocam em fundos imobiliários, aos milionários empréstimos accionistas com poucas garantias de títulos que hoje em Bolsa valem uma pequena fracção do valor de compra a crédito.

Na linha de financiamento da troika estão disponibilizados 12 mil milhões de euros para reforço dos capitais da Banca. Ainda não se sabe quem vai recorrer. A probabilidade do BCP e BPI recorrerem a esta linha é elevada. A Caixa Geral de Depósitos também precisará de reforçar o seu capital, mas a troika impede o acesso do banco público à linha dos 12 mil milhões de euros. A venda dos negócios dos seguros do banco público pode ser o mecanismo de reforço de capital .

‘EL DOURADO’ ANGOLANO

A crise de crédito asfixiou ainda mais as empresas e acelerou o desemprego. O investimento e a procura interna tiveram quebras assinaláveis e os poucos sinais positivos da economia foram as exportações, apesar do arrefecimento europeu, o principal destino, dos bens e serviços ‘made in Portugal’ limitar o potencial de crescimento.

Para muitas empresas e empresários e alguns aventureiros Angola voltou a ser um mítico ‘El Dourado’. Luanda é o destino de cada vez mais portugueses que fogem à crise, ao desemprego e aos cada vez mais magros salários. O poder de Angola é visível na estrutura accionista do BPI e BCP, na Galp. E é também o dinheiro de Angola o principal dinamizador dos empreendimentos de luxo, das lojas caras de Lisboa e dos restaurantes mais caros. Do Brasil, graças à ligação privilegiada da TAP, também chegaram sinais positivos e os turistas da terra descoberta por Pedro Álvares Cabral foram outra das boas notícias do ano.

AINDA PIOR

Voltando à vida real das famílias, asfixiadas por dívidas, com cada vez menos dinheiro disponível ao fim do mês, porque em ano de recessão a inflação disparou. Por força das medidas de ajustamento, o IVA subiu nas contas da luz e do gás, os transportes públicos ficaram mais caros.

Os números elevados do desemprego favorecem a nova tendência de redução salarial. A quebra do poder de compra das famílias é uma consequência do brutal ajustamento da economia. 2011 foi mau, mas 2012 será ainda pior. A ressaca do País endividado vai ser dolorosa e mesmo que o País faça a sua parte nada garante que a retoma chegue em 2013. Tudo depende da Europa e do euro. E se algo correr mal à moeda única, Portugal vai sofrer.


2012 EM ANTEVISÃO

A PÃO E ÁGUA

A receita da troika para Portugal passa por substituir os mecanismos de desvalorização da moeda. Menos salários, mais impostos e menos despesa do Estado. Em 2012 vamos sentir os efeitos dessa terapia. O risco é o doente morrer da cura.

CRISE NOS CAFÉS

Todos os negócios dependentes da procura interna vão sofrer os efeitos da crise. Mais desemprego e menos dinheiro disponível significa menos consumo. Os cafés e restaurantes sofrem ainda com o agravamento do IVA para a taxa máxima.

CORTE NOS SUBSÍDIOS

Após o corte de metade do subsídio de Natal em 2011, funcionários públicos e reformados vão perder os subsídios dos 13.º e 14.º meses. A redução começa a partir dos 610 euros brutos mensais e aos 1100 euros brutos o corte é radical. Quem ganha 780 euros perde um salário.

MENOS EMPREGO

A economia vai perder cerca de 3% face à riqueza gerada em 2011. O País aproxima-se da assustadora marca de um milhão sem emprego.

FAMÍLIAS SOB PRESSÃO

O aumento do custo de vida vai ser sentido por todos. Os desempregados são os mais desprotegidos, mas as famílias com rendimentos brutos na casa dos 700 euros vão ter dificuldades em esticar o salário até ao fim do mês.


 

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