Vende-se activos portugueses. Dívida para começar, empresas para completar. Sócrates está a dar tudo por tudo para evitar o recurso ao FMI. E, surpreenda-se, talvez o consiga.
Porque a Europa está a mudar de estratégia em relação aos aflitos. Mesmo assim, o País não será o mesmo. Nem dos mesmos.
Na conferência de sexta-feira do Negócios, o comissário europeu Joaquín Almunia disse a frase certa: se queremos que os países emergentes comprem activos financeiros europeus, também temos de nos preparar para que nos comprem activos reais. Ou seja, vender-lhes não apenas dívida pública mas também empresas, bancos, portos, infra-estrutras - e, quem sabe, até contrapartidas diplomáticas inconfessáveis.
Perdemos o direito a ser prosélitos: Portugal não tem poupança, não tem financiamento e perdeu a credibilidade. Se é no Qatar, em Abu Dhabi ou em Pequim que há dinheiro, é para lá que vamos. E para Luanda. Mas se com o Banco Central Europeu se aplica a palavra "ajuda", com os investidores directos o termo é "negócio". Para eles, Portugal é do tamanho de um erro de arredondamento. Só investem pelas contrapartidas: a taxa de juro; e os activos reais.
José Sócrates é hoje um director comercial com plenos poderes, promovendo a privatização de empresas como a REN ou a EDP. A venda de activos, de que Cavaco Silva falava há dias, não é uma opção, é uma inevitabilidade. A Teixeira Duarte vendeu a Cimpor, a PT vendeu a Vivo, a Brisa vendeu a CCR, a Galp está a ser colocada no Brasil, a EDP já tem capitais argelinos e árabes, a REN há-de ter qatari, o BCP terá chinês, etc. A venda de activos reais é um processo em curso: para escrever a próxima edição do livro "Os Donos de Portugal", o Bloco de Esquerda terá de aprender línguas remotas. O debate dos centros de decisão nacionais fica para quando voltar a prosperidade - quer dizer, a sobrevivência.
A situação financeira é crítica e ainda não vimos o pior. Hoje, há concursos internacionais onde as empresas portuguesas precisam de se apresentar com bancos estrangeiros, os portugueses já não são aceites. O BCE é o nosso seguro de crédito, que chega a fazer de um leilão de dívida uma quase encenação. Mesmo com estas taxas insustentáveis.
O modelo de socorro à Grécia e à Irlanda fracassou, pois nem conteve o risco sistémico do euro, nem aliviou nesses países os custos de financiamento. Como diz Paul De Grauwe hoje no Negócios, se é para pagar taxas de juro tão altas ao fundo da União e do FMI, não vale a pena Portugal pedir ajuda. São taxas que nos atiram para a insolvência; são alternativas de acesso a capital, mas não do seu custo.
Há vários meses que a Comissão Europeia acredita que a salvação tem de ser global e não local. A Alemanha é o obstáculo mas já tem uma linha menos dura de oposição - e continua sem pressa. Um novo modelo de apoio está a ser desenhado, que passará por soluções menos estigmatizantes que na Grécia. Falta alargar o Fundo de Estabilização, torná-lo mais flexível e sobretudo definir como se repartem os prejuízos - e que eufemismos e engenharias se criarão para que as opiniões públicas não vejam os perdões, ajudas e prejuízos que por aí vêm.
Portugal precisa ganhar tempo, para que em vez de ser o último país da fase das intervenções directas do FMI seja o primeiro da nova fase de apoios por controlo remoto. É isto que o BCE nos está a dar, tempo; é isto que Sócrates anda a procurar pelo mapa-mundi do capital, tempo.
Talvez o faça pela sua própria sobrevivência política, mas os efeitos políticos são neste momento secundários. Como diz Ricardo Pais na peça "Sombras", sobre a portugalidade, "a nossa tristeza é uma imensa alegria". Pois é. Mas não paga dívidas.
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