Os Senhores do Fraque ®

  • Aumentar o tamanho da fonte
  • Tamanho padrão da fonte
  • Diminuir tamanho da fonte
Início Cobranças Farmácias sem remédio

Farmácias sem remédio

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF
AddThis Social Bookmark Button

A crise chegou ao sector. Há farmácias com dívidas de milhões. Algumas estão até à venda por um euro. Mas ninguém compra... 

Uma farmácia por um euro. É o preço de uma aspirina que não tira as dores de cabeça a Maria de Lourdes Cabaço. A farmácia que dirige na vila de Monsanto, Idanha-a-Nova, tem um passivo de 540 mil euros. Dívida que terá de ser assumida por quem venha a comprá-la. Ninguém quis, até agora. Igual angústia vive outro farmacêutico do distrito de Coimbra, que pelo mesmo valor nunca conseguiu vender a sua farmácia, com um passivo de 2,9 milhões de euros.

A crise que atinge o sector, segundo estima a Associação Nacional de Farmácias, levará a que mais de 1800 empresas deixem de ser viáveis em 2012, caso as medidas anunciados pelo Governo entrem em vigor.

"Não foi uma decisão tomada de ânimo leve. Demorei mais de um ano para colocar o estabelecimento à venda. Sempre acreditei que conseguiria dar a volta à situação". Há seis anos, Maria de Lourdes Cabaço apaixonou-se à primeira vista por Monsanto – "a vila mais portuguesa de Portugal". Amor tão arrebatador que levou a farmacêutica, então com 40 anos, a deixar a residência em Espinho e a fazer o percurso inverso ao de centenas de beirões que se mudaram para o litoral.

A farmacêutica viu na oportunidade de compra, em Junho de 2006, da Farmácia Monsantina a concretização de um sonho – "que acabou por se transformar num pesadelo", ou num passivo de 540 mil euros.

A quebra nas receitas, que no último ano chegou aos 26 por cento, e o aumento das taxas de juro "dificultaram o pagamento dos empréstimos bancários", justifica Maria de Lourdes. "As oscilações dos preços dos medicamentos e a diminuição das margens de lucro estão a provocar uma crise no sector a nível nacional que vai levar ao encerramento de mais de um milhar de farmácias rurais. E como estamos no Interior, esse tipo de coisas afecta-nos muito mais".

Na vila de Monsanto, todos têm opinião sobre o assunto. "Se a farmácia fechar, teremos de fazer quase 25 quilómetros para comprar medicamentos na Idanha. Isso é inaceitável", reclama José Peixoto, de 71 anos. Ao lado, o amigo António Boino, de 74, também não quer ouvir falar nessa hipótese: "Aqui em Monsanto somos quase todos velhos e não temos forma de ir a outro lado sem ser de autocarro. E se estamos à espera dele para ir buscar remédios urgentes, bem morremos antes de o conseguir fazer".


NEM POR UM EURO

No distrito de Coimbra, o negócio que o pai do farmacêutico João (nome fictício) fez revelou-se ruinoso. Em 2005 comprou uma farmácia sobrevalorizada – por mais do quádruplo do valor de facturação anual (400 mil euros). Entretanto, investiu mais um milhão no imóvel do estabelecimento. E como tinha uma boa relação com o principal fornecedor de medicamentos, acordou que este garantiria stocks durante 3-4 anos e que depois se faria um plano de pagamentos. "Quando o motor do negócio começou a enfraquecer, pela descida das margens de lucro, começámos a aumentar o passivo", conta João. "Eu acabei o meu curso [de Farmácia, em 2008] e assumi o passivo".

O sonho de um pai para o filho transformou-se no pesadelo de todos. De três fornecedores, um já entrou com uma acção em tribunal para cobrança da dívida; outro, o principal e que apoiou o pai no início do investimento, está a pressionar para pagarem; o último dos três mantém o fornecimento.

"Corremos risco de entrar em insolvência. Não temos como pagar as dívidas, não há crédito". Quando as dívidas se tornaram insuportáveis, há cerca de um ano, João nem conseguia dormir. Optou por vender a farmácia por um euro, por cessão de quotas. Acontece que a farmácia factura 1,2 milhões de euros por ano e tem um passivo de 2,9 milhões. "Houve muitos interessados, mas desistiram ao verem a dívida no banco, as dívidas aos fornecedores e a instabilidade do sector. Não me lembro bem, mas chegaram a propor-me pagar dois milhões de euros e eu teria que assumir pessoalmente parte das dívidas [900 mil euros]. Era impossível eu conseguir".

João teve que desistir da ideia de vender a sua farmácia por um euro e está agora a tentar vender os activos, como o imóvel e o alvará. Daria para saldar parte das dívidas. "Nunca pensei que a minha vida chegasse a este ponto. Ainda por cima não fui eu que contraí as dívidas", lamenta.


DESVALORIZAÇÃO DE 50%

Segundo Jorge Forte, director-geral da imobiliária Mobifarm, "as farmácias desvalorizaram 50% e mesmo assim são difíceis de vender. O que se está a conseguir vender são as farmácias asfixiadas de tesouraria ou com passivos elevados". Acontece, porém, que "a banca não financia mais o sector, excepto se houver uma conta caucionada ou garantias reais".

Foi com uma conta caucionada e a esperança de ver um centro de saúde abrir nas imediações que António Melo conseguiu crédito de 30 mil euros para pagar os ordenados dos funcionários da Farmácia Boavista – uma das quatro dos bairros camarários de Lisboa: Alto do Lumiar, Boavista, Marvila e Padre Cruz. "Estou desde há dois meses sem fazer dinheiro para salários. As coisas estão de tal maneira que as farmácias estão ingovernáveis". Aos 78 anos, o farmacêutico garante que "pela primeira vez na vida" não conseguiu pagar ordenados. "E pela primeira vez também, no dia em que costumo pagar ao meu principal fornecedor tive de lhe pedir mais 15 dias. Quando é que as autoridades sanitárias deste País se convencem de que dentro de cinco ou seis meses o País vai ficar sem metade das farmácias?" – interroga.

"Já tenho os stocks reduzidos ao mínimo. Embora tenha três entregas por dia, ter que dizer aos clientes para voltarem mais tarde para levantar os medicamentos estraga o dia a muita gente. No máximo dos máximos, aguento até Junho próximo. Só que até lá vou deixar de ser farmacêutico como me estão a impor e vou ser comerciante. Senão, tento vendê-la. Ou tenho que fechá-la. Não vou continuar a perder dinheiro".

Fonte do sector explica que a situação económico-financeira das farmácias se tem "degradado de forma acentuada desde 2005, estando neste momento à beira do colapso total. Caso as medidas anunciadas pelo Governo venham a ser implementadas em 2012, mais de 1800 farmácias deixarão de ser economicamente viáveis. Este cenário negro foi traçado pela proposta do Governo, que impõe às farmácias – e apenas às farmácias – um sacrifício três vezes superior ao previsto no memorando com a troika". O sector foi abalado principalmente pelo aumento da quota de genéricos, que, com preços mais baixos, dão menores margens de comercialização, e pela diminuição nas margens de lucro dos medicamentos de marca, a par da diminuição do consumo.

Num bairro da zona oriental de Lisboa, a Farmácia Marvila está rodeada pelo "baixo poder de compra de uma população pobre", diz a proprietária Isaura Martinho. Com a quebra acentuada nas vendas, a partir de Junho último, a farmacêutica – recém-divorciada – sentiu-se obrigada a cortar no subsídio de férias e no seu próprio salário. A margem de lucro desapareceu.

"Vou chegar ao final do ano com saldo negativo", estima. As perdas de 25% nas vendas obrigaram a dispensar funcionários. Acontece que esta farmácia é familiar: Isaura e os três filhos – Jorge, de 30 anos, Adriano, 25, e Rui, 22 – dependem exclusivamente desta fonte de rendimento. "Não sei o que seria de nós se eu não tivesse dispensado duas pessoas – e um deles é meu filho, o Adriano, que acaba este ano o curso de Farmácia e está menos dependente do salário".

Jorge conta que "antigamente via a profissão de farmacêutico com estatuto junto da sociedade, perspectivas de estabilidade e até de crescimento profissional. Hoje, já não é uma aposta segura". Acontece que os dois irmãos estão a terminar o curso de Farmácia. "Estou numa agonia só de pensar como é que os meus filhos irão constituir família com esta actual situação... Tenho um apartamento para pagar e penso que será lá, na minha casa, que eles vão continuar a viver", confessa Isaura. Na farmácia já reduziram as luzes acesas e até desligaram o monitor informativo da montra. Em casa, as despesas fixas de 1500 euros vão obrigar, provavelmente, a desligar a TV por cabo. Mas num bairro onde todos conhecem a farmacêutica, Isaura não dispensa as couves e os ovos que lhe oferecem alguns clientes, como gratificação.


FARMÁCIA FUNDADA EM 1737 MUDA DE TERRA

Mosteiró, Vila do Conde, fica a 12 km do Porto. É um meio rural, onde até a feira semanal tem vindo a perder fôlego. Nesta localidade, tinha porta aberta até Fevereiro a Farmácia Azevedo, com existência conhecida desde 1737 e há oito gerações na mesma família. "Se abrisse aqui outra farmácia, morríamos asfixiados", diz a farmacêutica Conceição Azevedo. "Logo que soubemos que Vila do Conde estava deficitária de quatro farmácias e que abriria uma em Modivas [a dois quilómetros de Mosteiró], pedimos transferência para lá. Senão, estaríamos hoje a esbracejar para sobrevivermos".

Insatisfeitos ficaram alguns populares de Mosteiró por terem perdido uma das mais antigas farmácias do País. "Alguns até se zangaram connosco e optaram por ir a outras farmácias só para nos castigar", diz a farmacêutica em substituição. Os donos da farmácia foram obrigados a investir nas novas instalações e até a despedir um funcionário, mas em compensação aumentaram a facturação.



NOTAS

SUSPENSÃO

Número de farmácias com fornecimentos suspensos subiu 184% de Dez. de 2009 a Setembro último.

JUSTIÇA

O número de processos judiciais em curso para regularização de dívidas cresceu 117 por cento em igual período.

VALOR

O montante global resultante do número de processos judiciais em curso para regularização de dívidas cresceu 126 por cento.

ACORDOS

Ainda segundo dados da ANF, o número de farmácias com acordos de regularização de dívida cresceu 227 por cento.

 

Comentar


Lost in Translation?

  • Gostei
  • O valor actual anda nos 571 biliões... cfr http://...
  • O que não falta são notícias cfr http://www.jn.pt/...
  • Cai a todos...até ao Sporting
  • Se com o ano de 2011 a Banca andou de rastos e tev...

Fale Connosco

Utentes Online

Utentes: 784 : 0 Total: 784
No members online