A crise está a fazer disparar o negócio da cobrança de dívidas. «Em 2010 recuperámos 400 mil euros, este ano já são cerca de um milhão de euros», explica Nuno Guimarães, da BBCS, uma empresa que começou a trabalhar na recuperação de crédito no final do ano passado.
«O nosso volume de negócios tem aumentado, porque as pessoas estão a ficar sobrecarregadas de dívidas», conta Victor Pedrosa da Guard Unipessoal. O serviço que presta tem cada vez mais procura: «O negócio cresceu 7% em seis meses».
«É uma área em crescimento», concorda Gerardo Portela, que abriu este ano a Value 24 e já está a pensar em contratar mais pessoal para dar resposta às necessidades dos bancos que querem recuperar dívidas. «Além da compra de créditos, uma das vertentes do negócio é o outsourcing para os bancos, que deixaram de fazer este serviço».
Abílio Lima, da empresa O Agente Cobrador, não tem dúvida de que «os tempos difíceis que vivemos» têm ajudado o sector, mas nota que «a dificuldade em realizar a cobrança tem sido maior». Isto, apesar de garantir que «há muitos devedores que se valem da crise para evitar o pagamento».
O cobrador assegura, aliás, que há «um devedor tipo, que tem uma boa vida aparente, à custa de contrair dívidas anos a fio» e que essa é uma situação cada vez mais frequente. «Na maioria das vezes o devedor tem posses mas não quer pagar», assegura Victor Pedrosa.
NÃO COBRAR POR OPÇÃO
Mas nem todos deixam de pagar as dívidas para fazer uma vida acima das suas possibilidades. «Até hoje tive três casos em que não cobrei por opção própria», lembra Abílio Lima, que ainda se choca com as histórias de algumas famílias sobreendividadas.
«Fui a casa de uma senhora na zona de Albarraque, mas vim-me embora sem fazer o acordo, apesar de perceber que ela tinha vontade de pagar em prestações os 1.200 euros de dívida».
O cenário que encontrou falou mais alto que o negócio: «A casa tinha as paredes negras de bolor e humidade e os filhos estavam cheios de frio, embrulhados em cobertores». Com ambos os elementos do casal desempregados, Abílio Lima limitou-se a «anotar no processo que a pessoa não tinha condições para pagar».
Gerardo Portela acredita mesmo que «em muitas situações as pessoas querem pagar e acabam por perceber que o podem fazer com a nossa ajuda, através de um plano de pagamentos».
Victor Pedrosa também admite «facilitar» os pagamentos das famílias em situações complicadas. «Os que passam dificuldades são os mais fáceis de receber, porque também são os que mais querem pagar».
13 MIL FAMÍLIAS SOBREENDIVIDADAS
Na Associação de Defesa do Consumidor (DECO) os efeitos da crise têm-se traduzido num aumento do número de pedidos de ajuda das famílias.
«No ano passado por esta altura eram cerca de oito mil, este ano já vão em 13 mil», revela Natália Nunes, que admite que muitas vezes já não é sequer possível renegociar a dívida. «Destes casos, só conseguimos ajudar 2.400 famílias». Em todas as outras situações já não há como pagar o que se deve através de acordos de pagamento. E a única saída passa pelos tribunais, «ou para um processo de execução por penhora de bens ou para se declarar a insolvência da pessoa».
Todos os processos abertos pela DECO correspondem a «pessoas singulares que estão de boa-fé e com manifesta impossibilidade de fazer face ao conjunto das suas dívidas não profissionais».
A jurista da DECO conta que em algumas famílias as dívidas já ultrapassam o valor do rendimento. «Muitas têm cinco créditos: o da habitação, o do automóvel e vários pessoais».
Segundo dados da DECO, em 51% dos casos as prestações ficaram por pagar por causa do desemprego ou de cortes salariais. Mas em 19% das situações o incumprimento deveu-se a uma doença e em 13,9% a culpa foi do divórcio.
Para evitar esta situação, Natália Nunes dá alguns conselhos: «As prestações não devem ultrapassar 40% do rendimento e as famílias devem ter uma poupança que seja igual a cinco ou seis vezes ao salário que recebem».
SECTOR POR REGULAR
Aos pedidos de ajuda para consolidar a dívida somam-se na DECO as queixas e os desabafos contra as empresas de cobrança. «As pessoas queixam-se de pressão psicológica», conta Natália Nunes.
Telefonemas para chefes e colegas de trabalho, mensagens a toda a hora e visitas a vizinhos e familiares são as atitudes que mais incomodam quem tem dívidas por pagar. «Mas é preciso não esquecer que as pessoas estão em incumprimento e que, desde que não haja atentado ao bom nome ou agressão física, as empresas estão a fazer o seu trabalho», frisa a advogada do Gabinete de Apoio ao Sobreendividado. Ainda assim, Natália Nunes acha que faz falta regulamentar o sector das cobranças. «Não há ainda legislação e era importante que houvesse, para se perceber afinal o que é que estas empresas podem ou não fazer», reclama.






